segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Processos de formação de palavras


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sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Refletindo sobre concordância nominal

Autor: Jorge Henrique Vieira Santos

Tirei a foto acima há pouco mais de um mês, ao passar pelo município de Nossa Senhora das Dores, interior do Estado de Sergipe. Como trabalharia com meus alunos os casos de concordância verbal e nominal na língua portuguesa, julguei oportuno utilizar o exemplo acima para suscitar as primeiras discussões.

Algo curioso na cena, que me despertou a atenção, é o fato de haver, nitidamente, dois momentos distintos em que os dois enunciados foram utilizados para o mesmo fim: divulgar a comercialização de ovos e galinhas de capoeira.

Acredito que o enunciado da lateral direita da residência teria sido utilizado no primeiro momento, visto que se apresenta de maneira mais rudimentar. A julgar pelo aspecto geral da casa e pela conhecida realidade social em que vive boa parte da população brasileira, imagino que seu proprietário, quando decidiu comercializar ovos e galinhas para complementar a renda familiar, resolveu economizar os investimentos em publicidade e propaganda e definiu que ele mesmo pintaria o enunciado em sua residência, agora transformada em comércio. Sua divulgação ficou assim:


Enunciado 01 - “Vende-se ovos e galinha de capoeira viva e abatida”

Não há o que se discutir mais sobre a concordância do verbo que inicia essa frase. Segundo os estudos lingüísticos atuais, não há um problema de concordância nesse enunciado, uma vez que na língua falada no Brasil aconteceu uma resignificação da sintaxe de frases assim. O falante de nossa língua não considera que haja, em frases como essa, uma voz passiva pronominal, mas sim um sujeito indeterminado, o que justifica o verbo no singular. Para Bagno (1999, p.98) “O que a gramática normativa insiste em classificar como sujeito, a gramática intuitiva do brasileiro interpreta como objeto direto”. Isso pode ser comprovado no segundo enunciado, pois, embora seu autor tenha modificado a organização e flexão de alguns termos, a flexão do referido verbo permaneceu inalterada. O motivo que o teria levado a reestruturar sua mensagem não foi esse, certamente.

Como explicar então o segundo enunciado?

Acredito que nosso novo comerciante tenha prosperado e, no segundo momento, como dispunha de uma situação financeira mais favorecida, decidiu contratar mão-de-obra especializada para pintar sua divulgação comercial. Observem que, no momento em que foi tirada a fotografia, a residência está ganhando nova pintura (agora em tom escuro avermelhado) sobre a qual há o letreiro, em branco, com fontes caixa alta na primeira parte e com fontes em tamanho menor na expressão: “vivas e abatidas”. Organizada dessa forma, a propaganda mais destaque, pois o branco sobressai no tom avermelhado, principalmente se escuro, e o objeto principal de comercialização (ovos e galinhas) aparece em primeiro plano. Essa é uma estratégia de publicidade que nosso comerciante não conhecia quando pintou o primeiro enunciado, o que demonstra haver aí a participação de um profissional da propaganda. Sua segunda divulgação ficou assim:

Enunciado 02 - “Vende-se galinha e ovos de capoeira vivas e abatidas”

Pelo visto, tudo leva a crer que a intenção do comerciante era a de melhorar a publicidade seu produto. Não se sabe, no entanto, se a modificação foi sugerida pelo profissional da propaganda, pelos clientes de nosso amigo ou por sua própria consciência. O fato é que a frase publicitária foi alterada justamente no momento em que o comércio passava por uma reforma.

Apresentei essa questão aos meus alunos do 3º ano do Ensino Médio e lhes perguntei:

Por que o comerciante decidiu modificar o enunciado quando resolveu melhorar sua propaganda?

Alguns alunos apontaram a expressão “ovos e galinha de capoeira”, no Enunciado 01, como o fator que motivou a mudança. Segundo eles, essa expressão dá a entender que apenas a galinha é de capoeira, os ovos não. Daí a modificação para “galinha e ovos de capoeira”, Enunciado 02. Vamos analisar.

Parece que, para os alunos, e também para o nosso novo comerciante, quando se diz “ovos e galinha de capoeira”, o adjunto adnominal “de capoeira” não se refere a “ovos”, mas apenas a “galinha”. Como se tivéssemos:

OVOS + GALINHA DE CAPOEIRA

Já quando dizem “galinha e ovos de capoeira”, compreendem que o adjunto também se refere a “galinha”, como se tivéssemos:

GALINHA (DE CAPOEIRA) + OVOS DE CAPOEIRA

Como explicar essa compreensão se é comum que se vendam tanto ovos de capoeira quanto galinhas de capoeira nessa região?

Além disso, como explicar que o segundo enunciado tenha prevalecido sobre o primeiro?

A nova organização que a expressão ganha no Enunciado 02 cria problemas graves. A segunda enunciação produz uma afirmação cuja lógica está profundamente comprometida, pois a expressão “ovos de capoeira vivas e abatidas” é inaceitável. Mesmo assim, o segundo enunciado prevaleceu sobre o primeiro e a expressão "vivas e abatidas", embora tenha ficado em segundo plano, com letras menores, causa estranheza nos leitores, pois atenta contra os princípios de concordância da variedade padrão e da variedade coloquial.

Sabe-se que a concordância de um único adjetivo com uma série de substantivos parece estar influenciada por três fatores: a função sintática do adjetivo, sua posição e o gênero dos substantivos a que se refere. Quando em função sintática de adjunto adnominal e posposto aos substantivos, como ocorre no caso em questão, a maioria dos gramáticos afirma que o adjetivo pode concordar com o substantivo mais próximo ou ir para o plural, concordando com ambos. De qualquer forma, entende-se que o adjetivo, mesmo que estabeleça concordância apenas com o substantivo mais próximo, refere-se a todos os substantivos da série. Observem a frase:

Comprei camisa e calça branca (Exemplo 01)

Numa frase como essa, o falante entende que tanto a camisa quanto a calça são da cor branca.

Ocorre que a função de adjunto adnominal nos enunciados 01 e 02 não é desempenhada por um adjetivo, mas por uma locução adjetiva (de capoeira), que permanece invariável em situações como esta na língua portuguesa. Mesmo assim, isso não deveria interferir em sua significação, pois se tivéssemos uma frase como:

Comprei camisa e calça de linho (Exemplo 02)

Entenderíamos que a camisa e a calça são feitas de linho. Se a colocássemos no plural, teríamos:

Comprei camisas e calças de linho

Ainda assim, continuaríamos a entender que tanto as camisas quanto as calças são de linho.

No enunciados 01 e 02, no entanto, apenas o termo “ovos” está no plural. Observe o que aconteceria com o exemplo 02 se puséssemos apenas o termo camisas no plural:

Comprei camisas e calça de linho


Embora soubéssemos que o adjunto se refere aos dois substantivos da série, também teríamos a impressão de que apenas a calça é de linho, as camisas não.

Acredito que como a locução adjetiva fica invariável, portanto no singular, parece que, no entendimento de meus alunos e do comerciante, houve uma associação do adjunto adnominal do enunciado 01 apenas com o substantivo “galinha”, que também está no singular, e não com o substantivo “ovos”, que nos dois enunciados se encontra no plural. Observem:


Como, para o comerciante, o adjunto adnominal já se referia a “galinha”, faltava acrescentar à expressão o substantivo “ovos”, para que o adjunto passasse a se referir a ele também. Foi o que fez no segundo enunciado, ao inverter os termos de posição. Embora criasse uma expressão absurda, o comerciante estava mais preocupado com o fato de seus clientes não entenderem que ali também se vendiam ovos de capoeira, por isso preferiu a segunda enunciação.

O restante da frase ficou em letras menores e com menos destaque, uma vez que se tratava de uma informação adicional e não, necessariamente, essencial, pois o que importava para o comerciante era deixar claro para seus clientes que tanto as galinhas quanto os ovos vendidos eram de capoeira. Os dois adjetivos do final do enunciado passaram então para o plural por influência do termo “ovos”, do qual ficaram mais próximos. Mesmo assim, mantiveram o gênero feminino, pois se referem à “galinha”, não a “ovos”.

Foi assim, tentando compreender os mecanismos de concordância nominal da língua portuguesa numa situação real de comunicação, que iniciamos nossas discussões sobre esse assunto. Parece que dessa forma o interesse por esse conteúdo curricular ganhou uma significação maior e a curiosidade dos alunos por questões semelhantes aumentou.

Publicado em 14/08/09.

REFERÊNCIAS

BAGNO, Marcos. Preconceito lingüístico: o que é e como se faz. São Paulo: Loyola, 1999.

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terça-feira, 11 de agosto de 2009

POR UMA EFETIVA GESTÃO DEMOCRÁTICA

Autor: Jorge Henrique Vieira Santos

Quando se fala em gestão democrática, no âmbito dos espaços escolares, é comum que surja na mente de muitos, envolvidos com a rotina de sala de aula, o vislumbre de um processo igualitário a partir do qual seja possível a escolha de diretores e vice-diretores, através do voto dos membros da comunidade escolar. Muitos acreditam que no dia em que for possível escolher, pelo voto, os gestores das escolas, a maioria de seus problemas terá solução, senão imediata, ao menos em curto espaço de tempo. Contudo, é importante atentar para o fato de que a escolha de diretores representa a etapa final de um longo processo de consciência coletiva, de amadurecimento de idéias e de conquista de autonomia por parte da comunidade escolar.


Na verdade, o processo começa lá atrás, quando todos os que fazem parte da escola e de seu entorno se decidem pela elaboração de uma proposta pedagógica condizente com a realidade de seus educandos, com as perspectivas pedagógicas de seu corpo de docentes e com as expectativas de familiares e da sociedade, em cujo coração está inserida esta escola.

Ao longo desse processo, algumas atitudes devem ser desenvolvidas pelos atores dessa proposta, quais sejam a de incentivo ao desenvolvimento do trabalho colaborativo, a da prática da auto-avaliação, a de planejamento diário das atividades, a de análises grupais e criteriosas de dados reveladores das características da escola e de seus membros. Tudo isso contribui para o amadurecimento dos membros da comunidade escolar, principalmente, professores e alunos, no sentido de que, ao tomarem em suas mãos as rédeas do destino da escola, assumem a responsabilidade pelos sucessos e fracassos decorrentes do processo. E essa responsabilidade é bastante salutar, uma vez que torna comum a todos tanto os frutos positivos quanto as dificuldades que devem ser enfrentadas diariamente no ambiente escolar.

Quando a escola traça seus rumos, quando se auto-orienta, quando define suas metas e resultados a serem alcançados, está ao mesmo tempo se transformando num organismo adulto, capaz de compreender o espaço em que está inserido e de atuar de maneira significativa na modificação da realidade a sua volta. Esse, entretanto, não é um estágio de amadurecimento que se constrói da noite para o dia, num piscar de olhos, bastando para isso apenas a simples vontade de todos, é bom que se frise.

A construção da escola ideal é um processo, e como tal, não encontra momento em que se diga: “está pronto!”, pois sempre há o que se possa melhorar. Quando a escola, entretanto, já se encontra nesse estágio de amadurecimento, pode ser capaz de escolher por voto de seus membros aquele que deverá conduzir sua organização. Aquele que, tendo uma proposta administrativa em perfeita consonância com as propostas e perspectivas da escola, possa submeter ao crivo daqueles que a compõem seu nome e seu projeto, a fim de receber o aval para que possa conduzir a escola aos seus objetivos pré-definidos. Não se devem queimar etapas, sob pena de se criarem novos problemas decorrentes do desgoverno de uma administração despreparada e sem rumos, à frente de um organismo escolar, cujas características e objetivos não são claros nem para os que a compõem nem para a comunidade em que se encontra.

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sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Um Condor Solitário

Autor: Jorge Henrique Vieira Santos

Tobias Barreto foi um poeta que não recebeu, necessariamente, o reconhecimento que merecia. Menosprezada pela crítica, sua obra poética não foi explorada o bastante, tampouco evidenciou-se sua qualidade estética. É necessário que se revele ao público sua boa produção, que se revejam posições críticas a seu respeito e que se faça justiça. Eis a proposta desse ensaio.


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