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sábado, 28 de setembro de 2013

Prezi sobre o desafio da autoria

Proposta para estimular a autoria de textos didáticos. 

Apresentação em Prezi de um trabalho elaborado para a disciplina "Produção de textos didáticos", ministrada pelo prof. Dr. Gláucio Couri no Módulo de Material Impresso do curso de Mídias em Educação MEC/SEED/UFS em 2008.



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terça-feira, 10 de setembro de 2013

Planejando a redação do Enem

Organize suas ideias!


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domingo, 29 de julho de 2012

LIMA BARRETO: UM PROFUNDO AMOR PELO BRASIL

 Jorge Henrique Vieira Santos*


“Esta é a história de um menino mulato, neto de escravos. A história de um jovem inteligente e pobre que viu o pai enlouquecer e, para cuidar da família, teve que abandonar os seus estudos; a vida de um homem que escrevia denunciando os absurdos de uma sociedade injusta. Autor de Triste Fim de Policarpo Quaresma, incompreendido, considerado louco e que morreu aos 41 anos. Está é a história de Lima Barreto, um dos grandes mestres da literatura brasileira”.

Lima Barreto
É com essas palavras (ao som da percussão de Enéas Costa), associadas a uma composição de imagens de época, gravuras, fotos do próprio Lima Barreto e uma cena do filme que levou ao cinema sua principal obra, que tem início o documentário de 28min, Lima Barreto: um grito brasileiro. Ele integra a série Mestres da Literatura, produzida pela equipe da TV Escola e coproduzida pelo Polo de Imagem e TV PUC, em 2008. A série, organizada em 11 episódios, cuja proposta é apresentar em cada episódio a vida e a obra de um grande escritor brasileiro, homenageia, entre outros, nomes como Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto e o grande Lima Barreto.

No documentário de que tratamos aqui, com roteiro e direção assinados por Mônica Simões, os fatos da vida e da obra de Lima Barreto, narrados por Afonso Carlos Marques dos Santos e por André Luiz dos Santos, são apresentados por meio de fotos, gravuras, leituras de trechos de crônicas e cenas do filme Policarpo Quaresma – herói do Brasil (1988). Os comentários ficam por conta de estudiosos como Afonso Carlos Marques dos Santos (UFRJ), Beatriz Resende (UFRJ), Nicolau Sevcenko (USP), Maria Tereza Campos (Editora e Consultora em Educação) e Antonio Arnoni Prado (Unicamp). Há ainda o depoimento do ator Paulo José, que interpretou Policarpo Quaresma na referida adaptação da obra feita para o cinema.

O vídeo destaca a relevância da obra de Lima Barreto para a literatura brasileira e enfatiza seu intenso sentimento nacionalista, a partir de sua dramática trajetória de vida e da apresentação e análise de sua obra, com ênfase para Triste Fim de Policarpo Quaresma.

Órfão de mãe aos seis anos, tendo vivido a infância e a adolescência no contexto histórico da abolição da escravatura e do regime militar dos primeiros anos da República, Lima Barreto foi alvo do racismo e do conservadorismo da época, durante o tempo em que estudou engenharia na Escola Politécnica do Rio de Janeiro. Lá, no entanto, despertou o interesse pela linguagem jornalística e escreveu suas primeiras crônicas sobre a cidade do Rio.

Forçado a abandonar a promissora carreira de engenheiro para cuidar de sua família quando seu pai enlouqueceu, tornou-se funcionário público, passando a residir no subúrbio carioca. Começou então a escrever para o Correio da Manhã, onde denunciava injustiças sociais e refletia sobre a sociedade brasileira de seu tempo. Nesse momento também escreveu seus primeiros romances: Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá e Recordações do Escrivão Isaías Caminha. Este último, devido às críticas feitas sob a forma de sátira ao diretor do Jornal Correio da Manhã, rendeu-lhe problemas e ofuscou o que seria uma estreia de sucesso.

Mesmo assim, alcançou notoriedade por suas obras. No entanto, problemas com o alcoolismo o prejudicaram bastante. Foi internado por três vezes no hospício e essas internações o levaram à exclusão social. Tido equivocadamente como louco, morreu em 1922, aos 41 anos. Curiosamente, sua morte ocorreu no ano em que o Brasil estaria entrando na modernidade, inaugurada simbolicamente pela Semana de 22.

Em seu grande romance, Triste Fim de Policarpo Quaresma, através do doloroso processo de conscientização de seu personagem central, um ingênuo patriota, faz uma crítica à república. O romance está divido em três partes. Na primeira, Policarpo delineia um projeto cultural para o Brasil, mas é ridicularizado e não obtém sucesso. Na segunda, Quaresma dedica-se a um projeto agrícola para o país, mas também fracassa nesse empreendimento e se decepciona. Na terceira parte, engaja-se num projeto de reforma política em defesa da ordem, alia-se às tropas de Floriano Peixoto e participa da Revolta da Armada. No entanto, desiludido com as atrocidades que vê contra os prisioneiros, ao tentar denunciá-las acaba sendo preso e morto pela própria ordem que defendia. Para Sevcenko, “a mensagem que o livro transmite é de como essa república brasileira traiu as suas promessas”.

O documentário mostra que Lima Barreto é, realmente, um dos grandes metres da nossa literatura e que sua obra se mantém atual, tanto pela linguagem quanto pela temática que aborda: a crítica política, a questão do preconceito, racial e de gênero, da ecologia, da desfiguração da paisagem urbana. Para Maria Tereza Campos, “muitos problemas de Brasil que ele pensa naquela época, que ele critica e que ele, enfim, desenvolve como reflexão, permanecem absolutamente atuais”.

O vídeo cumpre seu objetivo e revela ao espectador que Lima Barreto era um autor que se posicionava criticamente diante das questões que se colocavam para o Brasil de sua época, atento às peculiaridades da vida urbana do Rio de Janeiro e às desigualdades daquela sociedade, e que, a despeito dos percalços que enfrentou em sua trajetória, produziu uma literatura valiosa que nos ajuda a pensar esse país.

Vale a pena assistir ao vídeo e vale a pena também ler a obra de Lima Barreto.

Ficam as palavras de Antonio Armoni Prado que, ao final do documentário, instiga-nos a ler a obra desse grande mestre de nossa literatura:

“Temos que ler Lima Barreto porque não somos um país livre, não somos um país integralmente livre. Temos que ler Lima Barreto porque somos um país socialmente injusto, somos um país onde os pobres continuam pobres e as elites continuam no lugar delas. Não é para aprender português que se lê Lima Barreto. Lê-se Lima Barreto para aprender a ser brasileiro”.


*Jorge Henrique Vieira Santos é mestre em Letras pela UFS, poeta e professor da rede pública estadual e municipal de Nossa Senhora da Glória, Sergipe.

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sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Sequência Didática - aprendendo por meio de resenhas

Em 2012 a Equipe da Olimpíada de Língua Portuguesa oferecerá 680 vagas em março e 720 vagas em maio para o curso online "Sequência Didádita: aprendendo por meio de resenhas". As turmas formadas em março desenvolverão suas atividades de 27 de fevereiro a 29 de abril e as turmas formadas em maio desenvolverão suas atividades de 30 de abril a 01 de julho. 

O curso é destinado a professores de Língua Portuguesa do Ensino Fundamental e Médio em exercício de suas funções em escolas públicas de todo o Brasil. É interamente gratuito e para participar basta solicitar uma vaga na página da Comunidade Virtual Escrevendo o Futuro (clique aqui para acessá-la) no dia 15/02, a partir das 14h. 

Os cursistas que tiverem sua solicitação aceita receberão um email com os dados para acessar ao curso. 

Caso tenha outras dúvidas relacionadas a este curso envie mail para: escrevendocursos@cenpec.org.br.


Descrição do Curso:

Curso online Sequência didática: aprendendo por meio de resenhas

Totalmente a distância.

Objetivo: contribuir com a formação de professores no ensino de Língua Portuguesa, possibilitando ao participante: Vivenciar uma sequência didática (SD) para escrever uma resenha de um produto cultural; Compreender, a partir desta vivência, quais são os princípios do trabalho com gêneros e com SD na escola; Exercitar algo da "arte" de elaborar atividades e exercícios para ensinar crianças e jovens a produzir textos na escola.

Público-alvo:  Professores de Língua Portuguesa do Ensino Fundamental e Ensino Médio em exercício de escolas públicas do Brasil.

Duração:  9 semanas

Metodologia: O curso está dividido em sete módulos. As atividades são totalmente assíncronas (podem ser realizadas no horário mais adequado ao participante) e de diferentes tipos: autoinstrucionais (exercícios realizados individualmente, sem interação ou mediação), interativas (debates em fóruns) e mediadas (tarefas por escrito enviadas pelo participante e comentadas pelo mediador). O participante deve realizar essas atividades em tempo determinado, ao término do qual não será mais possível enviar trabalhos.

O que é preciso para participar: Dispor de 6 a 8 horas semanais para se dedicar ao curso. Ter habilidade de gerenciamento do tempo, de forma a conseguir realizar as atividades nos prazos determinados. Possuir habilidades de navegação na web, tais como: abrir e fechar links; carregar vídeos para serem assistidos; responder e enviar mensagens; produzir arquivos em word e enviá-los. Dispor de conexão estável regular com a internet. Ter instalado no seu computador as ultimas versões dos seguintes programas gratuitos: Adobe Reader e Adobe Flash Player.

Certificação para os participantes que realizarem 75% das atividades solicitadas no curso.

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sábado, 7 de janeiro de 2012

Do falar sergipano

Francisco José Alves - fjalves@infonet.com.br
Antônio Felix de Souza Neto - antfelixsouza@usp.br
(São professores)

Você já ouviu alguém falar /AUKUÍRIS/, /TREVUÁDA/, /TERNONTÔNTE/? Se é um sergipano natural e residente do município de Propriá/SE, com idade acima de 70 anos, e tem em seu vocabulário palavras comuns aos variados estratos socioculturais do seu tempo, certamente responderá que sim. E se você não é esse propriaense, mas é sergipano, e tem essas palavras em seu vocabulário ou já as ouviu na fala de pessoas de outros municípios de Sergipe, é indício de que essas palavras identificam algo da fala de sergipanos. Se você se sente sergipano de verdade, mas nunca ouviu isso ou não se lembra de tê-lo ouvido, não se preocupe! Não é por isso que você deixa de ser sergipano. Há outras coisas que identificam os sergipanos. E para aqueles que nem mesmo conseguem decifrar esses vocábulos, então aí vão suas respectivas representações gráficas na escrita convencional: ‘arco-íris’, ‘trovoada’, ‘trasanteontem’ ou ‘trasantontem’. Agora, o leitor pode voltar à primeira linha deste texto e comparar aquelas pronúncias do propriaense com a pronúncia convencional destas últimas. O que há de diferente entre elas?

E o que você diria de /KARKANHÁ/, para ‘calcanhar’; /MARIMBONDI/, para ‘marimbondo’; /TREISÓU/, para ‘terçol’; /XAMIXÚGA/, para ‘sanguessuga’; /ISTÂMBU/, para ‘estômago’; /GUMÍTU/, para ‘vômito’; /BERKULÓZI/, para ‘tuberculose’; /ARUPEMBA/, para ‘urupema, peneira’; /APILÍDI/, para ‘apelido’; /KARÉRMA/, para ‘quaresma’; /LABIZÔNI/, para ‘lobisomem’; /ÕIMBU/, para ‘ônibus’; /MUDUBÍM ou MINDUBÍM/, para ‘amendoim’?

Pois bem, todas estas pronúncias estão documentadas como características da fala de sergipanos do século passado.

Diante da norma culta, as pronúncias desses sergipanos se caracterizam por: (1) supressão de fonema (ex.: ‘tuberculose’ é /BERKULÓZI/); (2) adição de fonema (ex.: ‘terçol’ é /TREISÓU/); (3) substituição de fonema (‘arco-íris’ é /AUKUÍRIS/, ‘trovoada’ é /TREVUÁDA/, ‘mito’ é /GUMÍTU/); (4) troca de lugar do fonema na palavra (ex.: ‘terçol’ é /TREISÓU/); e (5) troca de lugar do acento tônico da palavra (ex.: ‘vômito’ é /GUMÍTU/).

Mas não é só no plano da pronúncia que se encontram características linguísticas de sergipanos do século passado. Há ainda outras palavras que foram documentadas como do vocabulário desses sergipanos: /KAKÓTA/, /UNZONÊTU/, /KALIFÕN/, /TAÍN/, /UTÊMPU/, /MARRÁIU/, você as conhece? É possível que não. Mas certamente conhece seus respectivos sinônimos: ‘rótula’, ‘óculos’, ‘sutiã’, ‘cicatriz’, ‘menstruação’, ‘bola de gude’.

Outras palavras encontradas em Sergipe, também no século passado, apresentavam acepções que podem ser peculiares do português daqueles sergipanos: /KUMPANHÊRA/, /NEGUÍNHU/, /SIMPATÍA/, /MORTÁLHA ou MORTÁIA/, /XÊRU/ e /ANTIGU/ foram encontradas com as seguintes acepções: ‘útero’, ‘sinal’, ‘franja’, ‘papel de enrolar cigarros’, ‘perfume’ e ‘desconfiado’. Você já conhecia essas acepções?

Todos os vocábulos que enfocamos aqui – com pronúncias e acepções de sergipanos – foram extraídos de trabalhos de folcloristas, literatos, linguístas etc., que datam desde início do século passado. Mas eles ainda podem ser encontrados na fala de sergipanos hoje em dia. 

Além desses vocábulos que foram documentados por folcloristas, literatos, linguístas etc., palavras/expressões como /BERTUÊJA/ (para dizer ‘brotoeja’), /KUAZIMÊNTI/ (para dizer ‘quase igual’), /XIMBÁ/ (com o sentido de ‘fracassar’), /BIGÓRNA/ (com o sentido de ‘dormida, soneca’), /BUKÁDU/ (com o sentido de ‘comida’), /DI ÔÔÔJI ou É D’ÔÔJI/ (para dizer ‘já faz muito tempo’) são facilmente encontradas na fala de sergipanos.

Como se explicam esses fatos linguísticos encontrados no português falado em Sergipe?

A palavra /KUAZIMÊNTI/ (para dizer ‘quase igual’) parece derivar de ‘quase’, pois, apresenta a terminação ‘-mente’, característica dos advérbios de modo. Essa palavra amplia o léxico da língua portuguesa, pois não há no português qualquer outra palavra com o seu significado. Curiosamente, ela também é encontrada em línguas mistas de povos africanos que foram trazidos para o Brasil durante a época da escravidão. Como se isso não bastasse, em francês, língua irmã do português, existe a palavra quasiment (para dizer ‘quase’). Você acha que isso são só meras coincidências?

A palavra /BUKÁDU/ (‘bocado’), embora mais regularmente usada com o sentido de ‘muita/muito’ (ex.: tinha um /BUKÁDU/ de gente na rua; ele ainda viveu um /BUKÁDU/) aqui em Sergipe atualmente, está dicionarizada com a seguinte acepção: ‘porção de comida que cabe na boca’. Assim, além da pronúncia (/U/ em lugar de ‘o’), dois outros processos podem ter ocorrido ai: primeiro um processo unicamente semântico – o todo (/BUKÁDU/ = ‘comida’) foi usado em lugar da parte (‘bocado’ = ‘porção de comida que cabe na boca’); depois, a palavra mudou de categoria e de significado – de substantivo ‘comida’ para pronome indefinido e advérbio ‘muita/muito’.

A locução adverbial /DI ÔÔÔJI ou É D’ÔÔÔJI/ (com sentido de ‘faz muito tempo’) apresenta uma característica muito particular. Ela só adquire este sentido quando pronunciada com entonação específica, ou seja, quando pronunciada com o Ô alongado (do tipo ÔÔÔ), como se fosse cantando. Caso contrário, ela pode ser confundida com outra locução adverbial (‘de hoje’), que significa ‘referente ao dia de hoje’. Ela pode derivar de uma estrutura maior (ex.: não é de hoje...), que sofreu redução e teve a perda compensada pela entonação.

Na fala de sergipanos, há ainda expressões como /KABRÚNKU/, /KARÁIU/, /GÔTA SERÊNA/, /FÍ DU KÂNSU MARIANU/, /FÍ DU KRÂNKU/, /FÍ DA KÓLA/, /FÍ DI MARÍA MÁIZ EU/, regularmente usadas em xingamentos. Os xingamentos se constituem sempre com conotações de nomes de órgãos genitais, coisas indesejáveis (doença, sensações de vergonha, nojo etc.), coisas censuráveis (religião, conduta social etc.). Sendo assim, é provável que /KABRÚNKU/ derive da palavra ‘carbúnculo’ (do jargão da medicina), que designa ‘infecção pela bactéria antraz’; /GOTA SERÊNA/ derive do nome da doença ‘gota’, caracterizada por dores nas articulações; e /FÍ DU KRÂNKU/ (onde /FI/ e /KRÂNKU/ devem ser variantes de ‘filho’ e ‘cancro’, respectivamente) derive do nome da doença venérea ‘cancro’, caracterizada por feridas na pele.    

Você pode até afirmar que, mesmo sendo sergipano, não usa essas palavras e expressões (com as respectivas pronúncias, acepções e entonações enfocadas aqui), mas eu duvido que você nunca tenha ouvido nenhuma delas em Sergipe! Elas fazem parte do vocabulário de muitos sergipanos. Basta se dar ao desfrute de ir às feiras, aos campos de futebol, aos parques e a outros lugares públicos da capital ou se dar ao luxo de viajar pelos municípios e povoados de Sergipe, sempre prestando atenção nas falas de sua gente, ali mesmo, em longas prosas com seus conterrâneos e você poderá ouvi-las.

Antes de serem tratadas como erros de português, vícios de linguagem, desvios da norma culta, impropérios etc., elas devem ser interpretadas como realidades linguísticas das variedades do português falado em Sergipe. Algumas delas podem ser até mais antigas que a norma culta (polida) do português falado no Brasil.

Afinal..., podemos ou não tratá-las como sergipanismos linguísticos? Podemos ou não tratá-las como coisa original, exclusiva e genuinamente sergipana?

Ainda não dá para responder com segurança a essas perguntas, pois, tudo o que há em uma língua natural – e isto vale também para as falas (sotaques) regionais – não se deve somente a criações linguísticas, mas também a heranças linguísticas e a empréstimos linguísticos. Muitos dados linguísticos são herdados ou emprestados sem sofrer qualquer alteração.

Há certamente aspectos das falas dos sergipanos que os distinguem e os identificam como tais. Talvez não somente na pronúncia dos vocábulos, no próprio vocabulário, nas acepções dos vocábulos, na entonação, mas também no ritmo da fala (duração de sílabas átonas, pré-tônicas, tônicas, pós-tônicas etc.). Pode haver algum recurso de expressividade peculiar das práticas linguageiras dos sergipanos: nas formas de cumprimento, saudação, despedida, aprovação, reprovação, atenuação, ironia, deboche, reprimenda etc.. Até mesmo nas trocas de turno (troca de falante) nos diálogos: as formas de interrupção, as hesitações, as pausas. Mas, é geralmente através de pesquisa que se identificam e se patenteiam as características linguísticas de cada região, cada estado etc.. Até onde eu sei, ainda não há pesquisa que revele originalidades ou exclusividades linguísticas sergipanas. Enquanto isto não acontece, os sergipanos (sergipanistas em especial) podem se contentar com o sentimento de pertencimento linguístico, ao se depararem com características linguísticas que lhes parecem familiares – familiares dos sergipanos! 

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sábado, 10 de setembro de 2011

Aulas Magistrais da UNICAMP

O Projeto Aulas Magistrais, da Universidade de Campinas (Unicamp), objetiva divulgar aulas ministradas por seus docentes, destinadas a alunos de graduação. Os diversos temas abordados nessas aulas são de interesse geral da comunidade acadêmica e da sociedade.

O projeto, que já conta com temas de diversas disciplinas disponibilizado gratuitamente, também estimula a interatividade, uma vez que solicita aos usuários da rede sugestões de temas para as próximas aulas a serem gravadas e disponibilizadas.

Entre as aulas já disponíveis no projeto, estão "400 anos depois. Por que ainda ler Vieira?", com Alcir Pécora; "O panorama da Arte Brasileira", por Lygia Arcuri Eluf; "O problema da liberdade no tempo da escravidão", por Sidney Chalhoub; "A Teoria dos Circuitos Elétricos, de Maxwell até hoje", por Yaro Burian Júnior; "Fisiologia do amor, da paixão e do sexo", por Miguel Arcanjo Áreas; "A medida de todas as coisas", por Alberto Saa; "Afetividade e práticas pedagógicas", por Sérgio Leite; "Obesidade em 3 atos", por Lício Velloso e "Introdução às Mudanças Climáticas Globais", por Carlos H. Brito Cruz.

Vale a pena visitar: http://www.prg.unicamp.br/aulas/
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sábado, 13 de agosto de 2011

Uma Biblioteca Virtual totalmente dedicada a pessoas com deficiência

Já está disponível, online, um espaço no qual as pessoas com deficiência poderão acessar gratuitamente um acervo com mais de 3.500 títulos. É a Biblioteca Inclusiva Digital Virtual Books, totalmente dedicada a pessoas com deficiência e a seus colaboradores. O espaço, de fácil navegação, disponibiliza títulos em áreas como: deficiência, psicologia, filosofia, matemática, química, física, história, direito, educação, informática, administração, comunicação e conhecimentos gerais entre outras áreas, divididas por tema. 

Embora o acesso seja inteiramente gratuito, é necessário cadastrar senhas para os usuários, a fim de se preservar os direitos autorais em vigor no Brasil e em outros países. Para isso, é necessário enviar um e-mail para: alzer4@uol.com.br, contendo o nome, profissão, cep, e-mail para cadastro + confirmação de deficiência (física, visual, auditiva, mental ou ajudante de pessoa com deficiência). Uma vez efetuado o cadastro na Bidvb, a pessoa receberá um link permanente e uma senha pessoal para ter acesso ao acervo.

Os organizadores da Bidvb pensaram no usuário com deficiência, sem desrespeitar os milhares de autores e editoras, cujos direitos são protegidos através da lei brasileira de direitos autorais, por isso a necessidade de senhas e o acesso apenas para deficientes e para colaboradores de deficientes, inclusive de outros países.

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sexta-feira, 27 de maio de 2011

Que modalidade da Língua Portuguesa deve ser ensinada na escola?

Excelente entrevista cedida pelo prof. Ataliba de Castilho ao "Notícias UNIVESP" sobre o ensino da língua portuguesa nas escolas brasileiras. O prof. Ataliba, de forma clara e inteligente, coloca definitivamente um ponto final na discussão sobre o livro didático "Por uma vida melhor".





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quinta-feira, 26 de maio de 2011

Professores da Universidade Federal de Sergipe falam sobre a pseudopolêmica do livro didático

Os profesores Antônio Ponciano Bezerra e José Araújo Filho, do Departamento de Letras da Universidade Federal de Sergipe, concedem entrevista ao "Bom Dia Sergipe" para esclarecer a pseudopolêmica gerada e divulgada pela mídia em torno do livro didático de língua portuguesa: "Por uma vida melhor", da coleção Viver e Aprender. Vejam a entrevista abaixo:






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sábado, 21 de maio de 2011

A polêmica do livro didático - escrever é diferente de falar

Recentemente, o Brasil tem acompanhado mais uma discussão a respeito de educação e ensino de língua, dessa vez motivada por mais uma reportagem tendenciosa veiculada pelo Jornal Nacional no dia 13 de maio. A matéria foi sobre o livro didático "Por uma vida melhor" (leia, na íntegra, o capítulo que causou a polêmica), da coleção Viver, aprender, distribuída pelo PNLD do MEC. Mais uma vez a imprensa brasileira dá demonstrações de que desconhece as contribuições da Linguística (campo científico constituído no início do século XIX) sobre questões de língua e de que a postura ética não integra procedimentos de rotina na condução de reportagens. Por conta dos efeitos danosos da matéria, que motivaram, inclusive uma ação coletiva contra a Editora Global, responsável pela publicação, a Associação Brasileira de Linguistas (ABRALIN) se pronunciou ontem, 20/05, em relação a esta questão, de forma a retratar o pensamento dos linguistas (Associação Brasileira de Linguística defende o livro do MEC).
Alguns linguistas, no entanto, já haviam se manifestado sobre o assunto. Prof. Sírio Possenti, por exemplo, publicou no Terra Magazine um texto esclarecedor e bem humorado: "Aceitam tudo" (Acesse aqui). Veja, abaixo, o que escreveu o prof. Marcos Bagno sobre a questão e veja também, na íntegra, a Nota Oficial da ABRALIN.

POLÊMICA OU IGNORÂNCIA?
Marcos Bagno
Universidade de Brasília


Para surpresa de ninguém, a coisa se repetiu. A grande imprensa brasileira mais uma vez exibiu sua ampla e larga ignorância a respeito do que se faz hoje no mundo acadêmico e no universo da educação no campo do ensino de língua. Jornalistas desinformados abrem um livro didático, leem metade de meia página e saem falando coisas que depõem sempre muito mais contra eles mesmos do que eles mesmos pensam (se é que pensam nisso, prepotentemente convencidos que são, quase todos, de que detêm o absoluto poder da informação). Polêmica? Por que polêmica, meus senhores e minhas senhoras?

Já faz mais de quinze anos que os livros didáticos de língua portuguesa disponíveis no mercado e avaliados e aprovados pelo Ministério da Educação abordam o tema da variação linguística e do seu tratamento em sala de aula. Não é coisa de petista, fiquem tranquilas senhoras comentaristas políticas da televisão brasileira e seus colegas explanadores do óbvio. Já no governo FHC, sob a gestão do ministro Paulo Renato, os livros didáticos de português avaliados pelo MEC começavam a abordar os fenômenos da variação linguística, o caráter inevitavelmente heterogêneo de qualquer língua viva falada no mundo, a mudança irreprimível que transformou, tem transformado, transforma e transformará qualquer idioma usado por uma comunidade humana.

Somente com uma abordagem assim as alunas e os alunos provenientes das chamadas “classes populares” poderão se reconhecer no material didático e não se sentir alvo de zombaria e preconceito. E, é claro, com a chegada ao magistério de docentes provenientes cada vez mais dessas mesmas “classes populares”, esses mesmos profissionais entenderão que seu modo de falar, e o de seus aprendizes, não é feio, nem errado, nem tosco, é apenas uma língua diferente daquela – devidamente fossilizada e conservada em formol – que a tradição normativa tenta preservar a ferro e fogo, principalmente nos últimos tempos, com a chegada aos novos meios de comunicação de pseudoespecialistas que, amparados em tecnologias inovadoras, tentam vender um peixe gramatiqueiro para lá de podre.

Enquanto não se reconhecer a especificidade do português brasileiro dentro do conjunto de línguas derivadas do português quinhentista transplantados para as colônias, enquanto não se reconhecer que o português brasileiro é uma língua em si, com gramática própria, diferente da do português europeu, teremos de conviver com essas situações no mínimo patéticas. A principal característica dos discursos marcadamente ideologizados (sejam eles da direita ou da esquerda) é a impossibilidade de ver as coisas em perspectiva contínua, em redes complexas de elementos que se cruzam e entrecruzam, em ciclos constantes. Nesses discursos só existe o preto e o branco, o masculino e o feminino, o mocinho e o bandido, o certo e o errado e por aí vai.

Darwin nunca disse em nenhum lugar de seus escritos que “o homem vem do macaco”. Ele disse, sim, que humanos e demais primatas deviam ter se originado de um ancestral comum. Mas essa visão mais sofisticada não interessava ao fundamentalismo religioso que precisava de um lema distorcido como “o homem vem do macaco” para empreender sua campanha obscurantista, que permanece em voga até hoje (inclusive no discurso da candidata azul disfarçada de verde à presidência da República no ano passado).

Da mesma forma, nenhum linguista sério, brasileiro ou estrangeiro, jamais disse ou escreveu que os estudantes usuários de variedades linguísticas mais distantes das normas urbanas de prestígio deveriam permanecer ali, fechados em sua comunidade, em sua cultura e em sua língua. O que esses profissionais vêm tentando fazer as pessoas entenderem é que defender uma coisa não significa automaticamente combater a outra. Defender o respeito à variedade linguística dos estudantes não significa que não cabe à escola introduzi-los aomundo da cultura letrada e aos discursos que ela aciona. Cabe à escola ensinar aos alunos o que eles não sabem! Parece óbvio, mas é preciso repetir isso a todo momento.

Não é preciso ensinar nenhum brasileiro a dizer “isso é para mim tomar?”, porque essa regra gramatical (sim, caros leigos, é uma regra gramatical) já faz parte da língua materna de 99% dos nossos compatriotas. O que é preciso ensinar é a forma “isso é para eu tomar?”, porque ela não faz parte da gramática da maioria dos falantes de português brasileiro, mas por ainda servir de arame farpado entre os que falam “certo” e os que falam “errado”, é dever da escola apresentar essa outra regra aos alunos, de modo que eles – se julgarem pertinente, adequado e necessário – possam vir a usá-la TAMBÉM. O problema da ideologia purista é esse também. Seus defensores não conseguem admitir que tanto faz dizer assisti o filme quanto assiti ao filme, que a palavra óculos pode ser usada tanto no singular (o óculos, como dizem 101% dos brasileiros) quanto no plural (os óculos, como dizem dois ou três gatos pingados).

O mais divertido (para mim, pelo menos, talvez por um pouco de masoquismo) é ver os mesmos defensores da suposta “língua certa”, no exato momento em quea defendem, empregar regras linguísticas que a tradição normativa que eles acham que defendem rejeitaria imediatamente. Pois ontem, vendo o Jornal das Dez, da GloboNews, ouvi da boca do sr. Carlos Monforte essa deliciosa pergunta: “Como é que fica então as concordâncias?”. Ora, sr. Monforte, eu lhe devolvo a pergunta: “E as concordâncias, como é que ficam então?

FONTE: http://marcosbagno.com.br/site/?page_id=745

NOTA OFICIAL da ABRALIN

Associação Brasileira de Linguística - Diretoria biênio 2009-2011

LÍNGUA E IGNORÂNCIA
O Brasil tem acompanhado a polêmica a respeito do livro Por uma vida melhor, distribuído pelo PNLD do MEC. Diante de posicionamentos virulentos e alguns até histéricos, a ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE LINGUÍSTICA, ABRALIN, vem a público manifestar-se a respeito. O fato que chamou a atenção foi que os críticos não tiveram sequer o cuidado de analisar o livro mais atentamente. Pautaram-se sempre nas cinco ou seis linhas citadas. O livro acata orientações dos PCN (Parâmetros Curriculares Nacionais) já em andamento há mais de uma década. Outros livros didáticos também englobam a discussão da variação linguística para ressaltar o papel e a importância da norma culta no mundo letrado.

Portanto, nunca houve a defesa de que a norma culta não deva ser ensinada. Ao contrário, entende-se que esse é o papel da escola, garantir o domínio da norma para o acesso efetivo aos bens culturais e para o pleno exercício da cidadania. Esta é a única razão que justifica a existência da disciplina de Língua Portuguesa para falantes nativos de português.

A linguística surgiu como ciência há mais de um século. Como qualquer outra ciência, não trabalha com a dicotomia certo/errado. Esse é o posicionamento científico, que permitiu aos linguistas elaborar outras constatações que constituem hoje material essencial para a descrição e explicação de qualquer língua humana.

Uma constatação é o fato de que as línguas mudam no tempo, independentemente do nível de letramento de seus falantes, do avanço econômico e tecnológico ou do poder mais ou menos repressivo das Instituições. Formas linguísticas podem surgir, desaparecer, perder ou ganhar prestígio. Isso sempre foi assim. Muitos dos usos hoje tão cultuados pelos puristas originaram-se do modo de falar de uma forma alegadamente inferior do latim.

Outra constatação é o fato de que as línguas variam num mesmo tempo: qualquer língua apresenta variedades deflagradas por fatores, como diferenças geográficas, sociais, etárias, dentre outras. Por manter um posicionamento científico, a linguística não faz juízos de valor acerca dessas variedades, simplesmente as descreve. No entanto, os lingüistas constatam que essas variedades podem ter maior ou menor prestígio, que está sempre relacionado ao prestígio que têm seus falantes no meio social. Por esse motivo, o desconhecimento da norma de prestígio pode limitar a ascensão social e isso fundamenta o posicionamento da linguística sobre o ensino da língua.

Não há caos linguístico, nenhuma língua já foi ou pode ser corrompida ou assassinada, ou fica ameaçada quando faz empréstimos. Independentemente da variedade que usa, o falante fala segundo regras gramaticais estritas. Os falantes do português brasileiro fazem o plural de "o livro" de duas maneiras: uma formal: os livros; outra informal: os livro. Mas certamente não se ouve "o livros". Assim também, não se pronuncia mais o "r" final de verbos no infinitivo, mas não se deixa de pronunciar (não de forma generalizada, pelo menos) o "r" final de substantivos. Qualquer falante, culto ou não, pode dizer (e diz) "comprá" para "comprar", mas apenas algumas variedades diriam "dô" para "dor". Estas últimas são estigmatizadas socialmente, porque remetem a falantes de baixa extração social. Falamos obedecendo a regras. E a escola precisa ensinar que, apesar de falarmos "comprá" precisamos escrever "comprar". Assim, o trabalho da linguística tem repercussão no ensino.

Por outro lado, entendemos que o ensino de língua materna não tem sido bem sucedido, mas isso não se deve às questões apontadas. Esse tópico demandaria discussão mais profunda, que não cabe aqui.

Por fim, é importante esclarecer que o uso de formas linguísticas de menor prestígio não é indício de ignorância ou de outro atributo que queiramos impingir aos que falam desse ou daquele modo. A ignorância não está ligada às formas de falar ou ao nível de letramento. Aliás, pudemos comprovar isso por meio desse debate que se instaurou em relação ao ensino de língua e à variedade linguística.
Maria José Foltran 
Presidente da ABRALIN 
Secretaria Abralin/Gestão UFPR 2009-2011

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domingo, 21 de novembro de 2010

Não é sobre você que devemos falar

*Ana Maria Gonçalves

Monteiro Lobato: um homem com um projeto para além do seu tempo

Caçadas de Pedrinho, publicado em 1933, teve origem em A caçada da onça, de 1924. Portanto, poucas décadas após a abolição da escravatura, que aconteceu sem que houvesse qualquer ação que reabilitasse a figura do negro, que durante séculos havia sido rebaixada para se justificasse moralmente a escravidão, e sem um processo que incorporasse os novos libertos ao tecido da sociedade brasileira. Os ex-escravos continuaram relegados à condição de cidadãos de segunda classe e o preconceito era aceito com total normalidade. Eles representavam o cisco incômodo grudado à retina, o "corpo imperfeito" dentro de uma sociedade que, a todo custo, buscava maneiras de encobri-lo, desbotá-lo ou eliminá-lo, contando com a colaboração de médicos, políticos, religiosos e outros homens influentes daquela ápoca. Um desses homens foi o médico Renato Kehl, propagador no Brasil das idéias do sociólogo e psicólogo francês Gustave Le Bon, que defendia a "superioridade racial e correlacionava as raças humanas com as espécies animais, baseando-se em critérios anatômicos como a cor da pele e o formato do crânio", segundo o livro Raça Pura, - Uma história da eugenia no Brasil e no mundo, de Pietra Diwan para a Editora Contexto. Renato Kehl reuniu ao seu redor uma ampla rede de intelectuais, com quem trocava correspondência e ideias constantemente, todos adeptos, defensores e propagadores da eugenia, assim definida por ele em 1917: "É a ciência da boa geração. Ela não visa, como parecerá a muitos, unicamente proteger a humanidade do cogumelar de gentes feias".




Em 1918 foi fundada a Sociedade Eugênica de São Paulo - SESP, contando com cerca de 140 associados, entre médicos e membros de diversos setores da sociedade que estavam dispostos a "discutir a nacionalidade a partir de questões biológicas e sociais", tendo em sua diretoria figuras importantes como Arnaldo Vieira de Carvalho, Olegário de Moura, Renato Kehl, T. H. de Alvarenga, Xavier da Silveira, Arhur Neiva, Franco da Rocha e Rubião Meira. A sociedade, suas reuniões e ideias eram amplamente divulgadas e festejadas pela imprensa, e seus membros publicavam em jornais de grande circulação como Jornal do Commercio, Correio Paulistano e O Estado de São Paulo. Lobato, como um homem de seu tempo, não ficaria imune ao movimento, e em abril de 1918 escreve a Renato Kehl: "Confesso-me envergonhado por só agora travar conhecimento com um espírito tão brilhante quanto o seu, voltado para tão nobres ideais e servido, na expressão do pensamento, por um estilo verdadeiramente "eugênico", pela clareza, equilíbrio e rigor vernacular." Era o início de uma grande amizade e de uma correspondência ininterrupta até pelo menos 1946, dois anos antes da morte de Monteiro Lobato. Os eugenistas agiam em várias frentes, como a questão sanitária/higienista, que Lobato trata em Urupês, livro de contos onde nasce o famoso personagem Jeca Tatu, ou a racial, sobre a qual me aterei tomando como ponto de partida outro trecho de uma das cartas de Monteiro Lobato a Renato Kehl: "Renato, Tú és o pai da eugenia no Brasil e a ti devia eu dedicar meu Choque, grito de guerra pró-eugenia. Vejo que errei não te pondo lá no frontispício, mas perdoai a este estropeado amigo. [...] Precisamos lançar, vulgarizar estas idéias. A humanidade pecisa de uma coisa só: póda. É como a vinha. Lobato."

O livro mencionado é O Choque das raças ou o presidente negro, de 1926, que Lobato escreveu pensando em sua publicação nos Estados Unidos, para onde ele se mudou para ocupar o cargo de adido cultural no consulado brasileiro de Nova York. Em carta ao amigo Godofredo Rangel, Lobato comenta: "Um romance americano, isto é, editável nos Estados Unidos(...). Meio à Wells, com visão do futuro. O clou será o choque da raça negra com a branca, quando a primeira, cujo índice de proliferação é maior, alcançar a raça branca e batê-la nas urnas, elegendo um presidente negro! Acontecem coisas tremendas, mas vence por fim a inteligência do branco. Consegue por meio de raios N. inventados pelo professor Brown, esterilizar os negros sem que estes se dêem pela coisa". Resumindo bastante, as coisas tremendas são: em 2.228, três partidos concorrem às eleições presidenciais americanas. O partido dos homens brancos, que pretende reeleger o presidente Kerlog, o partido das mulheres, que concorre com a feminista Evelyn Astor, e o partido dos negros, representado por Jim Roy. Com a divisão dos brancos entre homens e mulheres, os negros se tornam maioria e Jim Roy é eleito. Não se conformando com a derrota, homens e mulheres brancos se unem e usam "a inteligência" para eliminar a raça negra, através de uma substância esterilizante colocada em um produto para alisamento de cabelos crespos.

A composição dos partidos políticos parece ter sido inspirada por um dos livros preferidos de Lobato, que sempre o recomendava aos amigos, o L’Homme et les Sociètes (1881) de Gustave Le Bon. Nesse livro, Le Bon diz que os seres humanos foram criados de maneira desigual, condena a miscigenação como fator de degradação racial e afirma que as mulheres, de qualquer raça, são inferiores até mesmo aos homens de raças inferiores. Lobato acreditava que tinha encontrado a fórmula para ficar milionário, como diz em 1926: "Minhas esperanças estão todas na América. Mas o 'Choque' só em fins de janeiro estará traduzido para o inglês, de modo que só lá pelo segundo semestre verei dólares. Mas os verei e à beça, já não resta a menor dúvida". Com o sucesso do livro, ele esperava também difundir no Brasil a ideia da segregação racial, nos moldes americanos, mas logo teve suas esperanças frustradas, como confidência ao amigo Godofredo Rangel: "Meu romance não encontra editor. [...]. Acham-no ofensivo à dignidade americana, visto admitir que depois de tanto séculos de progresso moral possa este povo, coletivamente, cometer a sangue frio o belo crime que sugeri. Errei vindo cá tão verde. Devia ter vindo no tempo em que eles linchavam os negros." Deve ter sido uma grande decepção para Lobato e seus projetos grandiosos, visto que, em carta de 1930, também a Godofredo Rangel, ele admite fazer uso da literatura para se dizer o que não pode ser dito às claras: "é um processo indireto de fazer eugenia, e os processos indiretos, no Brasil, 'work' muito mais eficientemente".

Achei importante contextualizar esse livro porque acredito que todos que estão me lendo são adultos, alfabetizados, com um certo nível cultural e, portanto, público alvo desse romance adulto de Monteiro Lobato. Sendo assim, peço que me respondam com sinceridade: quantos de vocês teriam sido capazes de, sem qualquer auxílio, sem qualquer contextualização, realmente entender o que há por trás de O Choque das raças ou o presidente negro? Digo isso porque me lembro que, na época das eleições americanas, estávamos quase todos (sim, eu também, antes de ler o livro) louvando a genialidade do visionário e moderno Monteiro Lobato em prever que os Estados Unidos, um dia, elegeriam um presidente negro, que tinha concorrido primeiro com uma mulher branca e depois com um homem branco. Mas há também o que está por detrás das palavras, das intenções, e achei importante contextualizá-las, mesmo sendo nós adultos, educados, socialmente privilegiados.

O lugar do outro

Peço agora que você faça um exercício: imagine uma criança na sala de aula das escolas públicas de ensino médio e fundamental no Brasil. Negra. Sei que não deve ser fácil colocar-se sob a pele de uma criança negra, por isso penso em alternativas. Tente se colocar sob a pele de uma criança judia numa sala de aula na Alemanha dos anos 30 e ouça, por exemplo, comentários preconceituosos em relação aos judeus: "............ ...........", "............ .............. ...... .. ....". Ou então, ponha-se no lugar de uma criança com necessidades especiais e ouça comentários alusivos ao seu "defeito": "............. ............", "................. ..............". Talvez agora você já consiga sentir na pele o que significa ser essa criança negra e perceber a carga histórica dessas palavras sendo arrastada desde séculos passados: "macaca de carvão", "carne preta" ou "urubu fedorento", tudo lá, em Caçadas de Pedrinho, onde "negra" também é vocativo. Sim, sei que "não se fala mais assim", que "os tempos eram outros". Mas sim, também sei que as palavras andam cheias de significados, impregnadas das maldades que já cometeram, como lâminas que conservam o corte por estarem sempre ali, arrancando casca sobre casca de uma ferida que nunca acaba de cicatrizar. Fique um pouco de tempo lá, no lugar dessa criança, e tente entender como ela se sente. Herdeira dessa ferida da qual ela vai ter que aprender a tomar conta e passar adiante, como antes tinham feito seus pais, avós, bisavós e tataravós, de quem ela também herdou os lábios grossos, o cabelo crespo, o nariz achatado, a pele escura. Dói há séculos essa ferida:
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"Em nós, até a cor é um defeito. Um imperdoável mal de nascença, o estigma de um crime." Luiz Gama
Volte agora para o seu lugar e se ouça falando coisas do tipo: "Eu li Monteiro Lobato na infância e não me tornei racista", ou "Eu nunca me identifiquei com o que a Emília disse", ou "Eu não acho que chamar alguém de macaco seja racista", ou "Eu acho que não tem nada de ofensivo", ou "Eu me recuso a ver Lobato como racista", ou "Eu acho um absurdo que façam isso com um autor cuja leitura me deu tanto prazer". Se você não é parte do problema, nem como negro nem como racista, por que se colocar no centro da discussão? Você também já não é mais criança, e talvez seja a hora de entender que nem todas as verdades giram em torno do seu ponto de vista. Quando criança, talvez você tenha crescido ouvindo ou lendo expressões assim, sempre achando que não ofendiam, que eram de brincadeira e, portanto, agora, ache que não há importância alguma que continuem sendo ditas em livros dados na escola. Talvez você pense que nunca tenham te afetado. Mas acredito que, se você continuar não conseguindo se colocar sob a pele de uma criança negra e pelo menos resvalar a dor e a solidão que é enfrentar, todos os dias, o peso dos significados, ouso arriscar que você pode estar enganado. Elas podem ter tirado de você a sensibilidade para se solidarizar com esse grave problema alheio: o racismo. Sim, porque tenho a sensação de que racismo sempre foi tratado como problema alheio - é o outro quem sofre e é o outro quem dissemina -, mesmo sua erradicação sendo discutida no mundo inteiro como direitos humanos. Direitos de todos nós. Humanos. Direito de sermos tratados com dignidade e respeito. E é sobre isso que devemos falar. Não sobre você.

Esse é um assunto sério, para ser discutido por profissionais que estejam familiarizados com racismo, educação infantil e capacitação de professores, e que inclusive podem contar com o respaldo do Estatuto da Criança e do Adolescente, instituído em 1990 pela Lei 8.069. Destaco dois artigos do Capítulo II - Do Direito à Liberdade, ao Respeito e à Dignidade:
Art. 15. A criança e o adolescente têm direito à liberdade, ao respeito e à dignidade como pessoas humanas em processo de desenvolvimento e como sujeitos de direitos civis, humanos e sociais garantidos na Constituição e nas leis.
Art. 18. É dever de todos velar pela dignidade da criança e do adolescente, pondo-os a salvo de qualquer tratamento desumano, violento, aterrorizante, vexatório ou constrangedor.

Combate ao racismo no Brasil

‘Só porque eu sou preta elas falam que não tomo banho. Ficam me xingando de preta cor de carvão. Ela me xingou de preta fedida. Eu contei à professora e ela não fez nada''

[Por que não querem brincar com ela]‘‘Porque sou preta. A gente estava brincando de mamãe. A Catarina branca falou: eu não vou ser tia dela (da própria criança que está narrando). A Camila, que é branca, não tem nojo de mim''. A pesquisadora pergunta: ‘‘E as outras crianças têm nojo de você?'' Responde a garota: ‘‘Têm''.
Depoimento de crianças de 6 anos no livro "Do Silêncio do Lar ao Silêncio Escolar: racismo, discriminação e preconceito na educação infantil", de Eliane Cavalleiro - Editora Contexto

Colocando-se no centro da discussão, como se a "censura" não existente ao livro de Lobato as ofendesse pessoalmente, e como se fosse só isso que importasse nessa discussão, tenho visto várias pessoas fazendo os comentários mais absurdos, inclusive interpretando e manipulando outros textos ficcionais de Lobato para provar que ele não era racista, ou que era apenas um homem do seu tempo. Algo muito importante que não devemos nos esquecer é que nós também somos homens e mulheres do nosso tempo, e que a todo momento estamos decidindo o que a História escreverá sobre nós. Tenho visto também levarem a discussão para o cenário político, no rastro de um processo eleitoral que fez aflorar medos e sentimentos antes restritos ao lugar da vergonha, dizendo que a "censura" à obra de Lobato é mais um ato de um governo autoritário que quer estabelecer a doutrina de pensamento no Brasil, eliminando o livre-pensar e interferindo na sagrada relação de leitores com seus livros. Dizem ainda que, continuando assim, daqui a pouco estaremos proibindo a leitura de Os Sertões, Macunaíma, Grande Sertão: Veredas, O Cortiço, Odisséia, Dom Casmurro etc, esquecendo-se de que, para fins de comparação, esses livros também teriam que ser distribuídos para o mesmo público, nas mesmas condições. Às vezes parece-me mais uma estratégia para, mais uma vez, mudar de assunto, tirar o foco do racismo e embolar o meio de campo com outros tabus mais democráticos como o estupro, o incesto, a traição, a violência, a xenofobia, a homofobia ou o aborto. Tabus que, afinal de contas, podem dizer respeitos a todos nós, sejamos brancos ou negros. Sim, há que se lutar em várias frentes, mas hoje peço que todos apaguem um pouco os holofotes que jogaram sobre si mesmos e suas liberdades cerceadas, concentrem-se nas palavra "racismo" e "criança", mesmo que possa parecer inaceitável vê-las assim, uma tão pertinho da outra, dêem uma olhada no árduo e necessário processo que nos permite questionar, nos dias de hoje e dentro da lei, se Caçadas de Pedrinho é mesmo um livro indicado para discutir racismo nas salas de aula brasileiras.

Os motivos do parecer

De acordo com a Coordenação Geral de Material Didático do MEC, a avaliação das obras que compõem o Programa Nacional Biblioteca da Escola são feitas por especialistas de acordo com os seguintes critérios: "(...) a qualidade textual, a adequação temática, a ausência de preconceitos, estereótipos ou doutrinações, a qualidade gráfica e o potencial de leitura considerando o público-alvo". A simples aplicação dos critérios já seria suficiente para que o livro Caçadas de Pedrinho deixasse de fazer parte da lista do MEC. No parecer apresentado ao Conselho Nacional da Educação pela Secretaria da Educação do Distrito Federal, a professora Nilma Lino Gomes, da UFMG, salienta que o livro faz “menção revestida de estereotipia ao negro e ao universo africano, que se repete em vários trechos”. Destaco alguns: "Tia Nastácia, esquecida dos seus numerosos reumatismos, trepou na árvore que nem uma macaca de carvão”, ou (ao falar de um possível ataque por parte de onças) "Não vai escapar ninguém - nem Tia Nastácia, que tem carne preta", ou "E aves, desde o negro urubu fedorento até essa joia de asas que se chama beija-flor". Muita gente diz que contextualizar a presença no texto de trechos e expressões como essas seria menosprezar a inteligência de nossas crianças, que entenderiam imediatamente que não se faz mais isso, que a nossa sociedade se transformou e que atitudes assim são condenáveis. Aos que pensam assim, seria importante também levar em conta que "macaco", "carvão", "urubu" e "fedorento" ainda são xingamentos bastante usados contra os negros, inclusive em "inocentes brincadeiras" infantis durante os recreios nas nossas escolas por esse Brasil afora. E não apenas nas escolas, pois também são ouvidos nas ruas, nos ambientes de trabalho, nos estádios de futebol, nas delegacias de polícia e até mesmo nos olhares dos que pensam assim mas que, por medo da lei, não ousam dizer. Apesar disso, em reconhecimento ao importante caráter literário da obra de Monteiro Lobato, optou-se por sugerir que a obra fosse contextualizada e somente adotada por educadores que tenham compreensão dos processos geradores do racismo brasileiro. Como se fosse um problema fácil de compreender.

Pensando aqui com meus botões, sou capaz de me lembrar de inúmeras obras infanto-juvenis que valorizam o negro e tratam racismo com a seriedade e o respeito que o assunto merece, e que foram editadas principalmente depois da Lei 10.639/03, que inclui nos ensinos fundamental e médio a História e a herança africanas. Posso estar errada, mas me parece que Caçadas de Pedrinho entrou para o Programa Nacional Biblioteca da Escola antes disso; sendo o contrário, pela lei, nem deveria ter entrado. Há maneiras muito mais saudáveis, responsáveis e produtivas de se levar o tema para dentro da escola sem ter que expor as crianças ao fogo para lhes mostrar que queima; e sem brigada de incêndio por perto. Isso é maldade, ou desconhecimento de causa.

A causa - a luta pela igualdade de oportunidades no Brasil

Vou relembrar apenas fatos dos períodos mais recentes, que talvez tenham sido vividos e esquecidos, ou simplesmente ignorados, pela maioria das pessoas que hoje brada contra o "politicamente correto" da esquerda brasileira. Um breve histórico das últimas três décadas e meia:

1984 - o governo do General João Batista de Oliveira Figueiredo decreta a Serra da Barriga, onde tinha existido o Quilombo dos Palmares, como Patrimônio Histórico Brasileiro, num ato que reconhece, pela primeira vez, a resistência e a luta do negro contra a escravidão.

1988 - Durante as comemorações pelo Centenário da Abolição, o governo de José Sarney cria a Fundação Cultural Palmares, vinculada ao Ministério da Cultura, que terá como meta apoiar e desenvolver iniciativas que auxiliem a ascensão social da população negra. Ainda nesse ano é promulgada a nova Constituição que, no seu artigo 5º, XLII, reconhece o racismo como crime inafiançável e imprescritível, ao mesmo tempo em que abre caminho para se estabelecer a legalidade das ações afirmativas, ao legislar sobre direitos sociais, reconhecendo os problemas de restrições em relação aos portadores de deficiências e de discriminação racial, étnica e de gênero.

1995 - durante o governo de FHC adota-se a primeira política de cotas, estabelecendo que as mulheres devem ocupar 30% das vagas para as candidaturas de todos os partidos. Nesse mesmo ano, em novembro, acontece em Brasília a Marcha Zumbi contra o Racismo, pela Cidadania e a Vida, quando foi entregue ao governo o Programa de Superação do Racismo e da Desigualdade Racial, com as seguintes sugestões: incorporar o quesito cor em diversos sistemas de informação; estabelecer incentivos fiscais às empresas que adotarem programas de promoção da igualdade racial; instalar, no âmbito do Ministério do Trabalho, a Câmara Permanente de Promoção da Igualdade, que deverá se ocupar de diagnósticos e proposição de políticas de promoção da igualdade no trabalho; regulamentar o artigo da Constituição Federal que prevê a proteção do mercado de trabalho da mulher, mediante incentivos específicos, nos termos da lei; implementar a Convenção Sobre Eliminação da Discriminação Racial no Ensino; conceder bolsas remuneradas para adolescentes negros de baixa renda, para o acesso e conclusão do primeiro e segundo graus; desenvolver ações afirmativas para o acesso dos negros aos cursos profissionalizantes, à universidade e às áreas de tecnologia de ponta; assegurar a representação proporcional dos grupos étnicos raciais nas campanhas de comunicação do governo e de entidades que com ele mantenham relações econômicas e políticas. Como resposta, em 20 de novembro de 1995, Fernando Henrique Cardoso cria, por decreto, o Grupo de Trabalho Interministerial - GTI - composto por oito membros da sociedade civil pertencentes ao Movimento Negro, oito membros de Ministérios governamentais e dois de Secretarias, encarregados de propor ações de combate à discriminação racial, promover políticas governamentais antidiscriminatórias e de consolidação da cidadania da população negra e apoiar iniciativas públicas e privadas com a mesma finalidade.

Como base para o GTI foram utilizados vários tratados internacionais, como a Convenção n.111, da Organização Internacional do Trabalho - OIT, assinada pelo então presidente Costa e Silva naquela fatídico ano de 1968, no qual o país se comprometia, sem ter cumprido, a formular e implementar políticas nacionais de promoção da igualdade de oportunidades e de tratamento no mercado de trabalho. Somente após pressão e protestos da sociedade civil e da Central Única dos Trabalhadores, é então criado o Grupo de Trabalho para Eliminação da Discriminação no Emprego e na Ocupação - GTEDEO, composto por representantes do Poder Executivo e de entidades patronais e sindicais, também no ano de 1995.

1996 - A recém criada Secretaria de Direitos Humanos lança, em 13 de maio, o Programa Nacional de Direitos Humanos - PNHD, que tinha entre seus objetivos "desenvolver ações afirmativas para o acesso dos negros aos cursos profissionalizantes, à universidade e às áreas de tecnologia de ponta", "formular políticas compensatórias que promovam social e economicamente a comunidade negra" e "apoiar as ações da iniciativa privada que realizem discriminação positiva".

2002 - no final do governo de Fernando Henrique Cardoso foi lançado o II Plano Nacional de Direitos Humanos, que reconhece os males e os efeitos ainda vigentes causados pela escravidão, então tratada como crime contra a humanidade.

2003 - o governo de Luiz Inácio Lula da Silva promulga o decreto que reconhece a competência do Comitê Internacional para a Eliminação da Discriminação Racial - CERD, para analisar denúncias de violação de direitos humanos, como previsto no art. 14 da Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial, de 7 de março de 1966. Também em 2003 é criada a Secretaria Especial de Política de Promoção da Igualdade Racial - SEPIR e, subordinada a ela, o Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial - CNPIR, visando apoio não apenas à população negra, mas também a outros segmentos étnicos da população brasileira, combatendo o racismo, o preconceito e a discriminação racial, e tendo como meta reduzir as desigualdades econômica, financeira, social, política e cultural, envolvendo e coordenando o trabalho conjunto de vários Ministérios. Nesse mesmo ano também é alterada a Lei 9.394, de 1996, que estabelece as diretrizes da educação nacional, para, através da Lei 10.639/03, incluir no currículo dos estabelecimentos de ensino fundamental e médio, segundo seu artigo 26-A, I, "estudo da História da África e dos Africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política pertinentes à História do Brasil."

2010 - entra em validade o Estatuto da Igualdade Racial que, entre outras coisas, define o que é discriminação racial ("distinção, exclusão, restrição ou preferência baseada em etnia, descendência ou origem nacional"), desigualdade racial ("situações injustificadas de diferenciação de acesso e oportunidades em virtude de etnia, descendência ou origem nacional"), e regula ações referentes às áreas educacional, de propriedade rural, comunidades quilombolas, trabalhista, cultural, religiosa, violência policial etc.

A "caçada" a Caçadas de Pedrinho - Acima estão apenas alguns dos "melhores momentos" da luta contra o racismo e a desigualdade. Há vários outros que deixo de fora por não estarem diretamente ligados ao caso. Eu quis apenas mostrar que o parecer do MEC não é baseado em mero capricho de um cidadão que se sentiu ofendido pelas passagens racistas de Caçadas de Pedrinho, mas conta com o respaldo legal, moral e sensível de ativistas e educadores que há anos estão lutando para estabelecer políticas que combatam o racismo e promovam a formação não apenas de alunos, mas de cidadãos.

Em junho de 2010, o Sr. Antônio Gomes da Costa Neto (Técnico em Gestão Educacional da Secretaria do Estado da Educação do Distrito Federal, mestrando da UnB em Educação e Políticas Públicas: Gênero, Raça/Etnia e Juventude, na linha de pesquisa em Educação das Relações Raciais) encaminhou à SEPPIR denúncia de conteúdo racista no livro Caçadas de Pedrinho. A SEPPIR, por sua vez, achando a denúncia procedente, protocolou-a no Conselho Nacional de Educação. Foi providenciado um parecer técnico, por pedido da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (SECAD/MEC), realizado pela técnica Maria Auxiliadora Lopes, que é subcoordenadora de Educação Quilombola do MEC, e aprovado pelo Diretor de Educação para a Diversidade, Sr. Armênio Bello Schimdt. O parecer técnico diz assim:

"A obra CAÇADAS DE PEDRINHO só deve ser utilizada no contexto da educação escolar quando o professor tiver a compreensão dos processos históricos que geram o racismo no Brasil. Isso não quer dizer que o fascínio de ouvir e contar histórias devam ser esquecidos; deve, na verdade, ser estimulado, mas há que se pensar em histórias que valorizem os diversos segmentos populacionais que formam a sociedade brasileira, dentre eles, o negro."

Em outro momento:

"Diante do exposto, conclui-se que as discussões pedagógicas e políticas e as indagações apresentadas pelo requerente ao analisar o livro Caçadas de Pedrinho estão de acordo com o contexto atual do Estado brasileiro, o qual assume a política pública antirracista como uma política de Estado, baseada na Constituição Federal de 1988, que prevê no seu artigo 5º, inciso XLII, que a prática do racismo é crime inafiançável e imprescritível. É nesse contexto que se encontram as instituições escolares públicas e privadas, as quais, de acordo com a Lei nº 9.394/96 (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional), são orientadas legalmente, tanto no artigo 26 quanto no artigo 26A (alterado pelas Leis nº 10.639/2003 e nº 11.645/2008), a implementarem nos currículos do Ensino Fundamental e no Ensino Médio o estudo das contribuições das diferentes culturas e etnias para a formação do povo brasileiro, especialmente as matrizes indígena, africana e européia, assim como a obrigatoriedade do estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena."

Não há censura, boicote ou banimento. O parecer técnico fala sobre orientação, contextualização, preparo do educador para trabalhar a obra na sala de aula. Ouvi pessoas bradando contra uma possível nota acrescentada ao livro, dizendo que isso em si já seria uma mordaça ou um desrespeito à obra de Lobato. Será que isso valeria também para a nota existente no livro, alertando as crianças que já não é mais politicamente correto atirar em onças? É assim:

"Caçadas de Pedrinho teve origem no livro A caçada da onça, escrito em 1924 por Monteiro Lobato. Mais tarde resolveu ampliar a história que chegou às livrarias em 1933 com o novo nome. Essa grande aventura da turma do Sitio do Picapau Amarelo acontece em um tempo em que os animais silvestres ainda não estavam protegidos pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (IBAMA), nem a onça era uma espécie ameaçada de extinção, como nos dias de hoje." (p. 19).

Não que eu tenha nada contra as coitadas das onças, espécie ameaçada de extinção, mas será que as crianças não mereceriam também um pouco mais de consideração? O próprio Lobato, depois de ser acusado de ofender os camponeses com sua caracterização de Jeca Tatu como o responsável por sua própria miséria, reconhece o erro e pede desculpas públicas através do jornal O Estado de São Paulo, escrevendo também o mea-culpa que passaria a integrar a quarta edição de Urupês, em 1818:

"Eu ignorava que eras assim, meu caro Tatu, por motivo de doenças tremendas. Está provado que tens no sangue e nas tripas um jardim zoológico da pior espécie. É essa bicharada cruel que te faz feio, molenga, inerte. Tens culpa disso? Claro que não".

Ou seja, o próprio Lobato, nesse caso, levou em consideração o que é dito em uma de suas frases mais citadas por quem quer demonstrar a importância dos livros na formação de uma sociedade: "Um país se faz de homens e livros". Não devemos nos esquecer que, tanto na frase como no ato citado acima, ele coloca o homem em primeiro lugar.

Outras contextualizações

Não é a primeira vez que uma obra considerada clássica sofre críticas ou até mesmo revisões por causa de seu conteúdo racista. Aconteceu, por exemplo, com o álbum "Tintim no Congo", do belga Hergé. Publicadas a partir de 1930, as tirinhas reunidas nesse álbum contam as histórias de Tintim em um Congo ocupado pela Bélgica. Por parte de Hergé, a obra foi revisada duas vezes, a primeira em 1946 e a segunda em 1970, reduzindo o comportamento paternalista dos belgas e suavizando algumas características mais caricaturadas dos personagens negros. Para justificá-las, Hergé declarou que as tiras tinham sido escritas "sob forte influência da época colonial", chamando-as de seu "pecado da juventude". O álbum revisado é publicado hoje no Brasil pela Companhia das Letras, a mesma editora de Caçadas de Pedrinho, e traz a seguinte nota de contextualização:

"Neste retrato do Congo Belga, hoje República Democrática do Congo, o jovem Hermé reproduz as atitudes colonialistas da época. Ele próprio admitiu que pintou o o povo africano de acordo com os estereótipos burgueses e paternalistas daquele tempo - uma interpretação que muitos leitores de hoje podem achar ofensiva. O mesmo se pode dizer do tratamento que dá à caçada de animais.”

Tintim na França - matéria reproduzida da France Presse e publicada na Folha de São Paulo, em 24/09/2007, conta que o O Movimento Contra o Racismo e pela Amizade entre os Povos (MRAP), uma das mais importantes organizações francesas contra o racismo, solicitou à editora Casterman que incluísse em suas edições de Tintim um alerta sobre o conteúdo e contra os preconceitos raciais. Outras organizações, como o Conselho Representante das Associações Negras (CRAN) já tinham se manifestado contra o álbum anteriormente, chegando a solicitar, inclusive, que a editora parasse de publicá-lo. Segundo Patrick Lozès, presidente da CRAN, "os estereótipos sobre os negros são particularmente numerosos" e "os negros são mostrados como imbecis e até mesmo os cachorros e os animais falam francês melhor".

Tintim na Inglaterra - em julho de 2007, depois de pronunciamento da Comissão Britânica pela Igualdade das Raças (BCRE), acusando o álbum de racista, uma das grandes redes de livrarias Britânicas resolveu passá-lo da prateleira de livros infantis para a prateleira de livros para adultos, reconhecendo que os congoleses são tratados como "indígenas selvagens parecidos com macacos e que falam como imbecis". Alguns anos antes, a editora britânica de Tintim no Congo, a Egmont, tinha se recusado a editar o álbum, voltando atrás por pressão de leitores, mas publicando-o com uma tarja de advertência sobre seu conteúdo ofensivo.

Tintim na Bélgica - um congolês, estudante da Universidade Livre de Bruxelas, entrou na justiça belga com queixa-denúncia e solicitação para que o álbum fosse retirado de circulação.

Tintim nos Estados Unidos - o álbum Tintim no Congo foi retirado das prateleiras da Biblioteca do Brooklyn, em Nova York, ficando disponível apenas para consulta solicitada.

Adaptações e a integridade de um clássico

Creio que alguns dos que hoje exaltam a genialidade do escritor Monteiro Lobato podem não tê-lo lido de fato, conhecendo seu universo através das diversas adaptações de suas obras para a televisão. Esses, com certeza, conhecem uma versão completamente filtrada do conteúdo dos livros; e seria interessante ficarem atentos os que reclamam de censura e de ditadura do politicamente correto. Segundo matéria do Estado de São Paulo em 01/11/2010, uma parceria entre a produtora Mixer e a Rede Globo levará ao ar em outubro de 2011 uma temporada em animação de 26 episódios baseada no Sítio do Picapau Amarelo. Em entrevista ao jornal, o diretor executivo da Mixer contou que "resquícios escravocratas em referência a Tia Nastácia serão eliminados da versão". Outra mudança, segundo ele, é em relação ao pó de pirlimpimpim: "No original, eles aspiravam o pó e 'viajavam'. Na versão dos anos 80, eles jogavam o pó uns sobre os outros. Ainda não decidimos como será agora".

Ou seja, desde que foi para a televisão, a obra de Monteiro Lobato tem sido adaptada, suavizada, contaminada pelo "politicamente correto". Talvez seja essa a "lembrança" de boa parte dos que dizem não ver racismo na obra de Lobato. Não seria o caso de brigar para que as referências racistas sejam mantidas, porque assim os pais também podem discutir racismo com os filhos que assistem TV Globinho? Ou que o pó de pirlimpimpim volte a ser cheirado para que as crianças, em contato com uma possível incitação ao consumo de drogas e sem nenhuma orientação, descubram por si só que aquilo é errado? Ou é ilegal, como também o é a adoção no Programa Nacional Biblioteca da Escola de obras que não obedeçam ao critério de ausência de preconceitos e estereótipos ou doutrinações.

Mesmo assim, o MEC pede apenas um preparo do educador, uma nota explicativa, uma contextualização. E as pessoas, principalmente as brancas, dizem que não pode, que é um absurdo, um desrespeito com o autor. Desrespeito maior é não se colocar no lugar das crianças negras matriculadas no ensino público médio e fundamental, é não entender que uma nota explicativa que seja, uma palavrinha condenando o que nela causa tanta dor, pode não fazer diferença nenhuma na vida de adultos, brancos, classe média ou alta e crianças matriculadas em escolas particulares; mas fará uma diferença enorme nas vidas de quem nem é levado em conta quando se decide sobre o que pode ou não pode ferir seus sentimentos. Desrespeito é não reconhecer que o racismo nos divide em dois Brasis; um que se fosse habitado só por brancos (ricos e pobres), ocuparia o 30º lugar no IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), e cairia para 104º lugar se fosse habitado só por negros (ricos e pobres). Ainda pretendo escrever um texto sobre manifestações de racismo na escola e sua influência nos primeiros anos de vida e de educação de brancos e negros. Mas, por enquanto, para quem chegou até aqui e continua achando que não há nada demais em expressões como "macaca de carvão", "urubu fedorento", "beiço", "carne preta", seja nos dias de hoje ou nos dias de escravidão, deixo apenas uma frase que poderia ter sido dita por outro personagem negro de Monteiro Lobato: "O vício do cachimbo deixa a boca torta".

* Ana Maria Gonçalves, negra, escritora, autora de Um defeito de cor 
Artigo publicado em 20 de novembro de 2010 - Dia da Consciência Negra

Fonte: O biscoito fino e a massa - blog sobre política, literatura, música, futebol, basquetebol. Desde outubro de 2010.

PS: Fonte da imagem.

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quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Racismo na América Latina - Por Teun Van Dijk

Embora de origem holandesa, Teun van Dijk é um dos mais importantes linguistas latinoamericanos. Seu estudo sobre discurso e racismo tem gerado uma enorme influência. Neste vídeo, faz uma apresentação detalhada da importância do discurso e do contexto, bem como dos esquemas mentais para a nálise do racismo do cotidiano. Para ele, linguagem e sociedade são pontos de partida indispensáveis para se analisar o fenômeno do racismo.




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